
- Porquê despedir-se agora?
— Estamos em Outubro e a época começou há alguns meses. Como devem compreender, esta não foi uma decisão tomada a frio nem repentina. É uma ideia totalmente amadurecida. Não é fácil, admito, até porque mantive a esperança de continuar a fazer o que mais gosto, que é jogar. Mas por razões pessoais, que têm unicamente a ver com a minha família, entendi ser esta a altura ideal e acabar a carreira como melhor solução.Há15 dias recebi um convite de Itália e foi aí que decidi encerrar este capítulo da minha vida. Antes isso que andar a enganar-me. Tenho dois filhos, vem mais um a caminho... Queria terminar de forma digna e entendo ter sido isso que sucedeu... Qual era o clube? Não interessa agora revelar... porque este é mesmo um ponto final.
— Qual foi o melhor momento que viveu?
— Foram muitos, afortunadamente. O meu primeiro jogo pelo FC Porto, todos os títulos que conquistei, e foram alguns, e a vida excelente que o futebol me proporcionou.
— E o pior momento? Foi alguma das lesões ou a saída em 2001 para o Charlton?
— Doeu-me mais, muito mais que qualquer lesão, e foram algumas, ter sido obrigado a ir para Inglaterra. Era a primeira vez que emigrava, foi toda uma situação demasiado cruel...
— Depois de concluída a carreira como futebolista, tenciona permanecer ligado ao futebol? Se sim, de que forma?
— Costumo dizer em tom de brincadeira, mas isso não quer dizer que não seja mesmo verdade, que agora desempenho as funções mais nobres que se pode ter, que é ser pai a tempo inteiro. Hoje, consigo acompanhar permanentemente os meus filhos, levá-los e buscá-los à escola, consigo ajudá-los no que eles mais necessitam. Para a semana vou começar a tirar o curso de treinador de II nível. Quero aprender enquanto espero para decidir o que será melhor para mim. Mas é certo que um dia voltarei ao futebol, com que funções não sei, mas que regressarei isso é garantido.
— Ao FC Porto, poderá ser?
— Porque não? O FC Porto foi, é e será sempre o clube do meu coração e a minha prioridade.
Ao lado de Baía
— Fica alguma mágoa por não ter concluído a carreira no FC Porto?
— Fica, é óbvio que sim. Há dois ou três anos tinha anunciado, aquando da renovação de contrato, que me despediria dos relvados na última época. Infelizmente, as coisas não correram da forma como tinha planeado. E essa é uma mágoa que ficará para sempre.
— Sentia-se em condições para jogar mais?
— Sentia-me, garantidamente. Eo facto de estar agora a anunciar oficialmente o final da carreira não significa o contrário. Porém, acredito ter terminado de uma forma digna e no momento ideal.
— Não acha que merecia algo mais, um tributo talvez, do FC Porto?
— Joguei cerca de 20 anos no FC Porto e fi-lo de alma e coração. Nunca pensei que pudesse algum dia ser obrigado a jogar noutro clube que não fosse o FC Porto. Quanto ao tributo, hoje estou aqui com um cachecol do Colectivo (ndr: uma das claques portistas), que me homenagearam no jogo contra o Marítimo e isso é que é o mais importante, ser reconhecido pelos adeptos. Ando na rua de cabeça erguida e chego a casa de consciência tranquila.
— Há quem considere que daria um bom dirigente, concorda?
— Também continuo a acreditar que seria mais benéfico e daria mais comigo uma carreira de dirigente, mas amanhã as coisas podem mudar...
— Consegue imaginar-se como sucessor de Pinto da Costa?
— Neste momento não. Mas não posso dizer que um dia mais tarde isso não venha a acontecer ou não seja possível... Espero e tenho o desejo de continuar ligado ao futebol e a prioridade é o FC Porto, não o escondo. E se na altura se proporcionar, porque não?...
— Ao lado de Baía, por exemplo?
— Sim, por exemplo... O Vítor é também portista, é um amigo, um símbolo do clube e é bastante respeitado e acarinhado pelos adeptos... Mística que se acaba
— Sai a bem com Pinto da Costa?
— Nunca tive qualquer problema com o presidente. Saio, fundamentalmente, de consciência tranquila.
— Há dias, Pinto da Costa revelou que se fosse possível não o tinha deixado sair. Quer comentar?
— Tenho a certeza que ele percebe bem porque saí. Saí porque me queria sentir útil. Durante seis meses fiz tudo para contrariar as ideias do treinador e não o consegui... Não era a pessoa mais feliz e sentia que estava no FC Porto quase por favor. Se calhar fui um pouco egoísta, mas queria acabar a carreira de uma forma digna e só jogando e sentindo-me útil é que isso poderia ocorrer, daí a minha saída para o Standard Liège.

— Curiosamente, Vítor Baía corre o risco de chegar ao fim da carreira sem jogar. Encontra semelhanças com o que lhe sucedeu?
— A situação é totalmente diferente: o Vítor pode não estar a jogar, mas é convocado e terá certamente oportunidade de voltar a actuar. Eu, pelo contrário, não era convocado nem ouvia tão-pouco as palestras. Sentia-me uma pessoa a mais no grupo.
— José Mourinho, numa declaração publicada no seu livro, dizia que não sabia o que ia ser do FC Porto sem Jorge Costa. É capaz de explicar o que vai ser, então, o FC Porto?
— Não sei o que vai ser, mas quero que continue a ter sucesso e que amanhã [hoje] vença o Hamburgo para continuar na Liga dos Campeões e que continue a ganhar títulos.
— Mas agora que no balneário só sobra Baía, não teme que a mística se acabe?
— É um facto e não vale a pena estar a esconder: o FC Porto tem uma equipa boa, muito forte e de grande valor e se ganha mais vezes que os adversários é porque é melhor que os outros. Mas em termos de mística tem vindo a perdê-la. Porquê? É simples: para haver mística é necessário que no balneário haja jogadores da casa ou que sintam verdadeiramente a camisola. Quando esses jogadores deixam de existir, deixa também de existir mística, é inevitável.
— As constantes mudanças da braçadeira não lhe causam confusão?
— O importante é que o FC Porto continue a vencer e isso é o que tem acontecido. E enquanto houver triunfos essa questão nem se coloca...
"Tem sempre algo de triste vermos abandonar o jogo alguém com quem partilhamos tantas coisas. Jorge Costa é um simbolo do futebol português e do seu clube de sempre, O FUTEBOL CLUBE DO PORTO. Deixa uma carreira fantástica, cheia de sucessos e de profissionalismo exemplar. Foi um grande companheiro, foi um jogador que venceu tudo, ou quase tudo. Só tem razóes para se orgulhar e eu só tenho razões para me orgulhar por ter vivido com ele tantos anos nas selecções. Se continuar ligado ao futebol, o futebol ganha; se não, ganhará quem puder contar com ele. Um grande abraço do teu amigo Luis."
Luis Figo








