Agora que já passou o primeiro mês desde o sorteio da fase de grupos do Mundial 2006 e que já todos ficamos a saber que Portugal é super-hiper favorito num grupo onde jogará contra equipas básicas como Angola, que se sabe jogará de pés descalços e sem a mínima noção do que é uma bola de futebol moderna (quinje a zero como diz o outro, vão ser seguramente quinje a zero!...), contra uns muçulmanos do Irão, que estão habituados a jogar no deserto, com toalhas de mesa na cabeça, num campo de areia e com dois camelos a servir de postes de baliza, e contra a selecção do México, famosos por dormir a siesta, precisamente no horário em que defrontam a selecção de Portugal. Como se vê é tudo canja carago, só mesmo se o ignóbil do Scolari e o frangueiro do Ricardo errarem é que está o caldo entornado. E depois é seguir até ao título mundial que, mesmo conquistado, será sempre fruto da sorte do brasileiro e da raça dos dois portistas convocados! Sim, porque se o Baia, famoso pelos seus inúmeros golos de pontapé de baliza fosse convocado, nem valeria a pena ir ao Mundial, era mandar entregar a taça Jules Rimet pela DHL. Ah, e nada como arranjar já uma conspiração sob uma não possível convocação do Quaresma para criar desde já atritos com o seleccionador, e para retirar louros das possíveis exibições do jogador caso seja convocado. Nada como mandar prender por ter cão ou por não o ter. Importante é uivar alto e bom som.
Bem, este parágrafo, por muito cómico que possa parece é, em primeiro lugar, fruto de ignorância de muitos opinadores (não confundir com pinadores, casos de Sérgio Conceição e Secretário), alguns deles encartados e, em segundo lugar, lamentável. Após um mês de reflexão aqui fica uma análise mais séria sobre os adversários portugueses no próximo mundial de futebol. Uma visão racional, sem patriotismo mas sobretudo sem anti-patriotismo.
Comecemos por Angola. Se estivéssemos a falar do Mundial de 1962, por exemplo, e Angola fosse à época uma nação independente, não faltaria motivos para receios bem fundados quanto ao confronto luso-angolano. Muitos jogadores brilhantes, como José Aguas e Peyroteu, entre tantos outros, teriam brilhado pela selecção dos Palancas Negras. Nos tempos que correm a história é outra, tanto mais que tantos anos de guerra colonial e civil não deram oportunidades e muitos jovens talentos para se desenvolverem adequadamente. Quantos não terão sido mutilados enquanto jogavam descalços? Uma verdadeira tragédia o que se passou e ainda se passa em Angola. O futuro do futebol, como muitos proclamam, inclusive Mourinho, passa por África. E certamente por Angola, assim que estejam reunidas todas as condições necessárias à sobrevivência.
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Nos dias de hoje Angola, pese embora a fantástica campanha de apuramento, em que eliminou a poderosíssima Nigéria, inegavelmente superior aos angolanos em todos os aspectos do jogo, terá sido o ponto alto angolano. Ninguém espera deles mais do que uma singela e honrosa participação. Alcançar um ponto já será motivo de regozijo para todos. Angola é sem duvida a equipa mais fraca do grupo D de Portugal, bem como uma das mais fracas em prova. Mas conseguiu lá chegar. Essa foi a grande vitória. Agora é tempo de festa e aprendizagem. O que todos esperamos é que não aprendam à nossa custa. Porque eles podem ser inferiores aos portugueses em tudo, mas a vontade e desejo de vingança por séculos de escravatura e exploração estará sempre presente na memória de alguns angolanos. Ninguém se esquece da ultra agressividade do embate entre Portugal e Angola em 2002. Cinco expulsões e varias tentativas de agressão a jogadores nacionais revelou e bem a raiva incontida dos angolanos. E contra atitudes como essa os jogadores nacionais terão de ter muita calma e paciência, deixando a arbitragem resolver os conflitos. Já bem basta a imagem de arruaceiros que temos por esse mundo fora, espero que Scolari prepare bem os jogadores para não reagirem a provocações. De resto, dentro de campo, se tudo correr naturalmente, Portugal não terá dificuldades para somar os três pontos. Desde que não inicie com uma táctica suicida “à la Oliveira”, como aquela que levou os EUA aos 3-0 com 30 minutos de jogo, no ultimo mundial…
Seguinte… Irão. As equipas asiáticas foram sempre vistas como as mais fracas a nível mundial. A emancipação do Japão e especialmente da Coreia do Sul no último mundial, curiosamente realizado nesses dois países (e daí alguma desconfiança de proteccionismo arbitral… que a meu ver até existiu…) alterou um pouco a visão dos adeptos, mas a grande novidade asiática será exibida no próximo mundial através do Irão. Se há selecção que partirá como underdog e que não pode de forma alguma ser desvalorizada, correndo o risco de se repetir o USA’02 – parte II para Portugal, é precisamente esta.
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Ali Daei continua a ser o grande goleador da equipa, ele que já passou por grandes clubes alemães inclusive sendo titular no fortíssimo Bayern Munique, mas outros nomes começam a surgir e os especialistas não têm dúvidas em apelidar este grupo como o melhor Irão de sempre. O jovem Ali Karimi, jovem estrela bávara, foi eleito melhor jogador asiático do ano.
O Irão internacionalizou-se, abriu-se ao mundo, e permitiu a saída para o estrangeiro das principais estrelas. Ali Daei continua a ser um dos nomes mais sonantes, mas agora surge acompanhado de Mahdavikia, Karimi, Zandi, Navidkia e Hashemian, que jogam todos na Alemanha (Hamburgo, Bayern Munique, Kaiserslautern, Bochum, e Hannover, respectivamente). O central Rahman Rezaei joga no Messina, de Itália. Pode-se concluir facilmente que mais de meia equipa titular tem experiência em campeonatos competitivos europeus, habituados à pressão de jogo à europeia e, tendo ainda como vantagem, a enorme colónia de emigrantes residentes na Alemanha, que os farão sentir em casa.
Para fim de festa… o México. Na última Taça das Confederações, realizada precisamente em solo alemão no passado verão, venceu o respectivo grupo inicial, onde se encontrava o Brasil (os mexicanos venceram por 1-0!). Logo a seguir, nas meias-finais, foi afastada pela Argentina, mas apenas através da marcação de grandes penalidades, num jogo dominado pelos mexicanos. No jogo pelo 3º lugar empatou a 3 com o anfitrião, caindo apenas no prolongamento. Com tudo isto o México acaba o ano no 5º lugar do ranking da FIFA, cinco lugares acima de Portugal.
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Se o México pratica um futebol virtuoso muito se deve às ideias tácticas do seu seleccionador, o argentino Ricardo La Volpe, 53 anos. La Volpe é capaz de surpreender os adversários pela sua capacidade de improvisação táctica. Na última Taça das Confederações, por exemplo, jogou com dois avançados frente ao Japão e diante da Argentina utilizou seis médios. Os amigos dizem que ele é um apaixonado pela táctica e nas conversas informais, de vez enquanto, lá desenha um esquema com o objecto que tem mais à mão para provar que a sua teoria é a mais correcta.
Quanto ao modelo de jogo, possuem grande dinâmica de jogo, praticando um futebol em pressão asfixiante, com grande polivalência entre os jogadores. O guarda-redes, Oswaldo Sanchez é uma referência, os defesas têm classe (Rafael Marquez, bem como Salcido e Pineda) e no ataque Borguetti (melhor marcador de todos os grupos de apuramento com 14 golos, somando já 67 golos ao serviço do seu país), um temível cabeceador, ao jeito de Charisteas, que não precisa de mais do que uma oportunidade para decidir um jogo.
O México vai estar pela 12ª vez na sua história num Campeonato Mundo e seu melhor registou aconteceu quando organizou o torneio, precisamente em 1970 e 1986, alturas em que chegou aos quartos-de-final. Para todos os que seguem o futebol na última dúzia de anos, não é difícil relembrar que tanto nos EUA’94, como no França’98 e na Coreia/Japao’02, o México esteve presente e apurou-se, sempre, para a segunda fase da competição. E tudo leva a crer que 2006 não será um ano de excepção à regra.
Considerando o Brasil num patamar aparte, o México está seguramente num segundo patamar. E se duvidas houvessem relativamente à qualidade do futebol asteca, a recente vitoria no Mundial sub-17 contra as estrelinhas brasileiras mostra que não só o México tem uma selecção competitiva no presente como aspira a um futuro radioso.
Em conclusão: definitivamente este não é o grupo fácil que todos pensam. Facilidades só esperam quem não tem conhecimento do que aqui escrevi. Como desta vez não conduzirá a nau o Oliveirinha estou muito mais tranquilo.
Não somos, definitivamente, os melhores do Mundo. E para sermos os melhores do grupo será preciso lutar muito. O que não quer dizer que lhes sejamos inferiores e que não os consigamos vencer. Mas fica desde já o aviso do que espera os portugueses desatentos do futebol mundial. A bola não rola apenas no bairro do clube local.